49| A Macondo Soviética
Uma vila fantasma em zona de conflito
Bom dia, boa tarde, boa noite, por enquanto.
O texto de hoje passa por regiões desconhecidas, mistura elementos perigosos e literatura da mais alta estirpe.
Espero que aproveitem.
Boas jornadas.
Trilha Sonora
Para ser lido ao som de Boney M.
A Macondo Soviética
Muitos anos depois, diante do corredor de mantimentos, eu iria recordar aquela tarde remota em que minha mãe me levou para conhecer a lactose.
Um dia você toma Toddynho confiante, no outro você cresceu, e com pelos pubianos vem a bateria da Portela dentro do seu organismo, anunciando torrentes de dissabor regadas pelos derivados do leite. Mesmo assim, sua mãe te leva para fazer o exame.
Por que adultos precisam de tudo no papel? Não basta a suadeira, o revertério, a taquicardia? Você entra no laboratório, tiram seu sangue e oferecem uma dose treme terra de lactose. Você se senta na sala de espera. A cada meia hora, será chamado para uma nova amostragem. A cada minuto, você irá implorar para que o mundo acabe sem movimentos bruscos. Após alguns dias, receberemos o atestado de ogiva nuclear láctea. Após alguns anos, entrarei na parte muçulmana da antiga URSS, e a partir deste ponto a definição de hospitalidade precisará ser atualizada.
Zamid me hospedou na residência dos seus pais e não me deixou pagar uma única refeição, devolveu até as notas que escondi no carro.
Café, almoço, janta. Respiro. Janta. Petiscos no meio. Janta. Carne, massa, manteiga líquida, manteiga sólida. Manteiga com manteiga.
Paramos na frente de uma vendinha na beira da estrada. O Ministério da Saúde advertia em cirílico os riscos de fumar. Zamid falou algo para seu primo, que nos acompanhava no carro, e foi até o freezer ao lado do caixa. Ergueu três picolés de embalagem azul celeste, uma vaca sorrindo e mais letras em cirílico.
Eu não sabia pronunciar intolerância em russo, arrisquei um sotaque inglês em intolerance, apontei para minha barriga e fiz cara de cueca suja. Riram.
Eu tomo esse sorvete desde criança. É leite puro, não faz mal, sem conservante. Confia.
Engoli seco, me lembrei do rolo de papel higiênico na mochila, pisquei o cu e peguei minha sentença.
Mas Zamid, não vai dar certo e não tem banheiro na estrada, ainda tentei.
Ele enfiou o sorvete na boca como resposta. Talvez este fosse o segredo para tantos lutadores de sucesso na região.
Primeira lambida. O Mar Cáspio deu lugar a vales e cidades nas encostas de morros. O sorvete de creme soviético não diferia do sorvete de creme capitalista.
Segunda lambida, a língua com mais coragem. A vegetação era rala. Se chover, desbarranca tudo. Vou colocar na mochila, melhor ela melada do que eu, eles não vão perceber.
Zamid virou para trás bem na hora.
Não falei que era bom?
Gamsutl já era então uma aldeia fantasma encravada no Cáucaso, a três horas da capital da República do Daguestão. Uns dizem ter cinco mil anos, outros três. Seu último morador pereceu há pouco, sozinho, autoproclamado prefeito e guardião das ruínas. As pedras das casas se amontoavam como se esperassem a volta de quem foi embora, uma Macondo soviética esquecida, sem Buendías para repetir o ciclo. Uma Comala sem Pedro Páramo. Uma Machu Picchu sem hordas de turistas. Cada janela como uma boca calada, cada porta um intestino retorcido.
Também ali se tratava de um pacto com a intolerância: o corpo assinando, em silêncio, sua renúncia ao passado. Percebi que aldeias e estômagos guardam o que não conseguem digerir.
Macondo terminou em solidão, Gamsutl resiste no silêncio, e eu, diante do sorvete que Zamid me ofereceu, percebi que talvez seja sempre assim: há coisas que insistimos em provar, mesmo sabendo que estaremos condenados.
Como começar com os clássicos?
Se Zamid aprender a ler em português e perceber minha insinuação à literatura russa, após contar sobre o Daguestão, teremos problemas maiores que a taxação do ser laranja. As Repúblicas Autônomas ao sul da Rússia têm características próprias e identidades muito peculiares, mas eu não poderia deixar de falar de um escritor à frente do seu tempo: Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski.
Autor de clássicos como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, entre outros, Dostoiévski expõe a sanidade humana — ou a falta dela — como se estivesse entre nós, em pleno século XXI.
Só que começar com suas obras-primas pode ser desafiador. Vá aos poucos, tente se habituar ao estilo, escolha livros mais curtos, preferencialmente de traduções diretas do russo.
Memórias do Subsolo pode ser uma porta de entrada para drogas mais pesadas.
Seu primeiro livro, Gente Pobre, também é acessível. Uma novela epistolar (troca de cartas), que pincela as diferentes vozes do grande escritor russo.
Por hoje é isso.
Agradeço quem dedicou seu tempo e chegou até aqui.
Fiquem bem, e até a próxima.







Ri alto. Texto delicioso
Texto bom demais pra quem tava com dor de barriga hahaha